Evangélicos hoje: protestantes ou católicos romanos?

Os evangélicos são, histórica e culturalmente, incluídos no ramo protestante da igreja cristã. Mas será que a fé professada hoje, pela grande maioria dos evangélicos, está mais próxima da fé protestante ou da fé católica romana?

Primeiramente cumpre esclarecer que o termo protestante, adiante utilizado, não se refere somente aos herdeiros diretos do movimento da reformada protestante do sec. XVI; pois alguns evangélicos (até mesmo alguns batistas) se julgam herdeiros de movimentos pré reformistas; mas sim engloba a todos aqueles que, na teoria, compactuam com os ideais ali defendidos, principalmente na questão da salvação pela fé somente.

Em segundo lugar, vale lembrar que o que identifica um grupo religioso com outro, não é necessariamente a maneira como é denominado, seu modo de governo ou a sua liturgia, mas essencialmente sua confissão de fé.

Muitos imaginam que, as grandes questões de fé que impulsionaram a cisão da igreja cristã ocidental no sec. XVI, sob a liderança de Martinho Lutero, eram questões ligadas ao papado, indulgências, opulência e purgatório. Mas será isso verdade?

O maior debatedor das idéias de Martinho Lutero, não foi, como muitos pensam, Joahnn Tetzel, o grande vendedor de indulgências, mas sim, Erasmo de Roterdã, grande teólogo e humanista católico, que comungava de muitas das idéias de Lutero, mas divergia no ponto fundamental: o homem não é salvo pela fé somente.

Atendendo ao pedido do Papa, para defender o ensino do “livre-arbítrio”, e contrariando Lutero que pediu para que não fizesse tal coisa, Erasmo publicou sua “Discussão Sobre o Livre-Arbítrio”, agradando tanto ao Papa como a Henrique VIII.

Depois de ler a obra de Erasmo, Lutero escreveu o seu clássico Da Vontade Cativa”. Nesse livro ele disse a Erasmo: “Elogio e gabo muito de ti o seguinte: És o único que atacou a questão em si. Isso é, a questão essencial, e não me fatigaste com aqueles assuntos secundários sobre o papado, o purgatório, as indulgências e outras coisas deste tipo que mais são frivolidades do que questões [sérias], pelas quais até agora quase todos tentaram caçar-me em vão. Tu foste o único que reconheceu o ponto central de toda [a controvérsia] e pegaste a coisa pela gravata; por isso te agradeço de coração.” Lutero declarou que Erasmo era um adversário da fé evangélica.

Pois bem, passados quase 500 anos dessa fundamental controvérsia entre católicos romanos e protestantes, assistimos em nossos dias, uma quase que completa capitulação no meio evangélico à doutrina católica romana do livre arbítrio. Dizem acreditar na salvação pela fé, desde que essa não invada o livre-arbítrio humano. Evangélicos na denominação mas com profissão de fé católica romana.

Segundo esses, o homem é salvo por Cristo, mas precisa da sua aquiescência para ser salvo. De fato não acreditam que o homem está espiritualmente morto em seus delitos e pecados, completamente incapaz de praticar qualquer ato que os aproxime de Deus, sendo que o chamado irresistível de Deus ao seu povo ficou reduzido a um oferecimento do evangelho. O humanismo tomou de assalto a doutrina.

Talvez isso explique o grande menosprezo pela Reforma em nossos dias, que é praticamente esquecida pela maioria dos que se dizem evangélicos neste país, revelando que na verdade são de uma religião diferente da dos reformadores e nem tão diferente da religião católica romana.

“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” João 1: 11 a 13

Valter Reggiani

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